"Assim como todos os sábados à noite, Marco Elshof, 21, chega por volta da meia-noite no Baja Beach Club, a célebre discoteca de Roterdã (Holanda). Diferentemente dos clientes ordinários, ele não precisa passar no caixa. Ele faz um sinal para uma recepcionista, que se aproxima com um scanner portátil. Ele estende o braço na direção do aparelho, e imediatamente, o seu nome, sua foto e um número de matrícula aparecem numa tela dependurada na parede. Sem uma palavra, os seguranças abrem espaço para deixá-lo entrar. O sistema informático da boate o reconheceu por ele ter implantado na parte de cima do braço um "Verichip": um tubo de vidro ultra-resistente do tamanho de um grão gordo de arroz, que contém um chip, um emissor-receptor e uma antena. Em menos de um segundo, o scanner ativa à distância o aparelho implantado, capta o número de identificação único de 16 dígitos contido no chip e o transmite para um computador que contém os arquivos de todos os clientes "implantados". Marco atravessa a sala imensa do Baja Beach Club, com os seus palcos para espetáculos, seus bares em forma de navio, suas garçonetes de biquíni e seus barmen de físico sarado. Ele sobe uma escada que leva até uma vasta plataforma sobrelevada: é o "VIP Deck", reservado aos clientes importantes e aos portadores de um Verichip."
"A Verichip busca também conquistar os mercados latino-americanos. No México, as autoridades logo consideraram esta novidade como uma ferramenta de controle e de segurança. Em janeiro de 2006, várias dezenas de funcionários do ministério da justiça e do escritório do procurador de Cidade do México se fizeram implantar um Verichip, cuja despesa foi bancada pela administração. O procurador-geral em pessoa convocou a imprensa para ser fotografado, com a manga arregaçada, enquanto um médico estava colocando seu implante."
"Mikey Sklar, 28, mora num loft em Brooklyn (Nova York) e trabalha como engenheiro em informática na Bolsa de Nova York. Já faz alguns meses, ele vive com um chip RFID implantado na mão esquerda, entre o polegar e o dedo indicador.Mikey começou a inventar aplicações para o seu novo brinquedo: "Eu conectei um leitor de RFID ao meu Macintosh. Este começa a funcionar tão logo aproximo a mão do teclado. Eu também fabriquei um pequeno monitor sem fio: quando coloco a mão à proximidade, ele me reconhece e mostra meus e-mails ou meus sites prediletos". Mikey se diz próximo à "filosofia trans-humanista", uma corrente de pensamento que surgiu nas universidades anglo-saxônicas há cerca de doze anos. Os trans-humanistas prevêem que em breve a espécie humana deixará de estar submissa passivamente à sua evolução física, e que ela conseguirá dominá-la, por meio, entre outros, dos implantes."
"Em Bellingham (Estado de Washington, noroeste), Amal Gaafstra, 29, o patrão de uma empresa de correio eletrônico, galgou uma etapa suplementar. Ele possui um implante em cada mão.Então, Amal instalou uma fechadura elétrica e um leitor RFID na porta do seu apartamento, a qual se abre sozinha tão logo ele aproxima sua mão da maçaneta. Ele repetiu o procedimento para o seu carro: a abertura das portas e a ligação do motor são comandadas pelo seu chip esquerdo."
"Os implantes selvagens já atravessaram o Atlântico, quase tão rapidamente quanto o Verichip. Dan Lane, um engenheiro em informática inglês de 25 anos que mora no Norfolk (centro-leste), tem um chip na munheca esquerda, para ativar suas portas e seus computadores. Dan, que capricha seu visual punk e se define como o "Digital Boy do século 21", tem o sentimento de ser um precursor, mas não por muito mais tempo. Segundo ele, o grande público vai se apoderar rapidamente desta tecnologia: "Na Inglaterra, é previsível que os adeptos do piercing e da tatuagem vão adotar os implantes, como uma moda. Assistiremos então à fusão entre duas tribos urbanas, os apaixonados por tecnologia e os aficionados pela modificação corporal. Aliás, o meu chip foi implantado pela minha namorada, que dirige uma loja de piercing. Então, todos esses jovens vão inventar livremente novas maneiras de se servir dos implantes, conforme as suas necessidades ou a sua fantasia"."
Fonte: Le Monde, 10/04/2006
Artigo original / traduzido